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“Fazei tudo o que ele vos disser” Jo 2,5

Estamos iniciando o ano Jubilar dos 300 anos da aparição da imagem de Nossa Senhora Aparecida. Aparecida é um lugar de graça para todos nós, que nos recorda Maria, a mãe de Jesus e nossa mãe e sua solicitude materna para conosco. O Evangelista São João 19, 25 -27 nos relata: “Perto da cruz de Jesus, permaneciam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. Jesus, então, vendo a mãe e, perto dela, o discípulo a quem amava, disse à mãe: ‘Mulher, eis aí  teu filho! Depois disse ao discípulo: Eis aí  tua mãe!’ E a partir dessa hora, o discípulo a recebeu em sua casa”. Na pessoa do discípulo amado estávamos todos nós, que aos pés da cruz recebemos Maria como nossa mãe.

Este relato está intimamente ligado a um outro, aquele das bodas de Caná narrado em Jo 2, 1-12. Nas Bodas de Caná, Maria é a mulher que aponta para os servos a vontade do Filho: “Fazei tudo o que ele vos disser”. Os servos, nesta cena, são descritos com a palavra grega diakonos. Diakonos significa o discípulo. Maria diz aos discípulos para que façam tudo o que o seu Filho mandar. Aqui se tem um texto rico de significado. A mãe, nesta cena, nos aponta a vontade do Filho, mas onde está contida a vontade do Filho? Onde encontrar a vontade do Filho? A vontade do Filho se encontra nas Escrituras, na Palavra de Deus, principalmente nos Evangelhos.

O mistério de Maria está intimamente ligado à Palavra de Deus. Maria é a mulher dócil à Palavra divina. Desde a anunciação do anjo, até os pés da cruz, Maria é a mulher dócil à palavra divina, é a mulher que escuta, interioriza e vive da Palavra de Deus. “A sua fé obediente face à iniciativa de Deus plasma cada momento da sua vida. Virgem à escuta, vive em plena sintonia com a Palavra divina; conserva no seu coração os acontecimentos do seu Filho, compondo-os por assim dizer num único mosaico (Lc 2, 19. 51)”[1]. A ligação entre a escuta da Palavra de Deus e Maria precisa ser redescoberta pelos nossos fiéis. Maria é a figura da Igreja  à escuta da Palavra de Deus que nela se fez carne[2].

A Palavra de Deus no decorrer da história formou homens e mulheres livres e operantes. Desde Abraão até Maria, os discípulos, a Palavra de Deus escutada e acolhida formou amigos de Deus. Na história da Igreja ela continuou a plasmar corações, basta vermos a rica história de tantos santos e santas. Hoje é a nossa vez. A Nossa amada Diocese de São Carlos quer trilhar este caminho, que nos indica o Verbum Domini e as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil de 2015 – 2019. Diz textualmente as Diretrizes: “O atual excesso de informações exige formação adequada que auxilie na síntese, no discernimento e nas escolhas. O desafio para todos os que aceitam Jesus como caminho é escutar a voz de Cristo em meio a tantas outras vozes. O discípulo missionário, bombardeado a todo momento por questões que lhe desafiam a fé, a ética e a esperança, precisa estar de tal modo familiarizado com a Palavra que, mesmo pressionado, não se sinta abalado (At 2, 25; 2Cor 4, 8-9), mas continue solidamente firmado em Cristo Jesus e, por seu testemunho, interpele os corações que o questionam (At 16,16-34). Infelizmente, também podemos constatar que a Bíblia, algumas vezes, não é compreendida como luz para a vida. Ao contrário, é instrumentalizada até para engodo”[3].

Neste caminho, meus queridos padres, religiosos (as), diáconos, seminaristas, leigos e leigas não podemos perder tempo. Todas as nossas forças devem se dirigir para fazer com que o nosso povo conheça a Palavra de Deus, medite a Palavra, reze com a Palavra, enfim, viva da Palavra de Deus. Quero que ela continue a formar, entre nós amigos(as) de Deus. Neste sentido, indico o número 4.3 das Diretrizes: Igreja: lugar de animação bíblica da vida e da Pastoral. Proponho que se incentive escolas bíblicas nas paróquias, círculos bíblicos, a leitura orante, que se valorize a proclamação da Palavra nas nossas celebrações litúrgicas e imploro que as homilias sejam centradas na Palavra de Deus ouvida.

A Palavra de Deus refletida, meditada e rezada alimenta o nosso caminho de fé nos tornando cristãos maduros. A fé vivida, alimentada, transforma-se em fé missionária, em missão. “A experiência da fé faz transbordar o anúncio explícito de Jesus Cristo para além da comunidade cristã, nos ambientes onde os mensageiros se fazem presentes como Jesus, cheio de graça e verdade”. Começaremos assim, a oferecer a todos, principalmente para aqueles que estão longe de Jesus Cristo, afastados da comunidade, o Evangelho de Jesus Cristo, assumindo com renovado ardor missionário e criatividade uma nova Evangelização.

A centralidade da Palavra nos conduzirá a um caminho bonito de discipulado, tornará a nossa Igreja mais missionária, uma verdadeira Igreja em saída, que vive de Cristo e tem a alegria de testemunhá-Lo aos outros.

Papa Francisco na Evangelli Gaudium convida a Igreja a uma verdadeira transformação missionária. Esta transformação passa pela centralidade da Palavra de Deus. Ele afirma que “toda evangelização está fundada sobre a Palavra escutada, meditada, vivida, celebrada e testemunhada”. A Sagrada Escritura é fonte da evangelização. Por isso, é preciso formar-se continuamente na escuta da Palavra. A Igreja não evangeliza, se não se deixa continuamente evangelizar. É indispensável que a Palavra de Deus “se torne  cada vez mais o coração de toda atividade eclesial”[4].

Transformação missionária implica colocar a Igreja numa posição de “saída”.  A escuta e vivência da Palavra de Deus coloca a Igreja neste dinamismo de “Saída”: Abraão (Gn 12, 1-3);Moisés (Ex 3, 17); Jeremias (Jr 1, 7). E por fim, o ide de Jesus: “Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. – Ensinando-os a observar tudo o que vos tenho ordenado” (Mt 28, 19-20). “Neste ide de Jesus estão presentes todos os cenários e desafios sempre novos da missão evangelizadora da Igreja e hoje todos nós somos chamados a esta nova “saída” missionária” [5]. Papa Francisco cita diversas realidades que precisam ser renovadas nesta dinâmica de saída, missionária. Citarei somente duas realidades que nos são muito próximas,  que é a paróquia e a Igreja particular, isto é, a Diocese.

  1. Paróquias – No n. 28 da Evangelii Gaudium, tratando sobre a pastoral em conversão, papa Francisco fala da paróquia: “A paróquia não é uma estrutura caduca; precisamente porque possui uma grande plasticidade, pode assumir formas muito diferentes que requerem a docilidade e a criatividade missionária do Pastor e da comunidade. Embora não seja certamente a única instituição evangelizadora, se for capaz de se reformar e adaptar constantemente, continuará a ser «a própria Igreja que vive no meio das casas dos seus filhos e das suas filhas». Isto supõe que esteja realmente em contato com as famílias e com a vida do povo, e não se torne uma estrutura complicada, separada das pessoas, nem um grupo de eleitos que olham para si mesmos. A paróquia é presença eclesial no território, âmbito para a escuta da Palavra, o crescimento da vida cristã, o diálogo, o anúncio, a caridade generosa, a adoração e a celebração. Através de todas as suas atividades, a paróquia incentiva e forma os seus membros para serem agentes da evangelização. É comunidade de comunidades, santuário onde os sedentos vão beber para continuarem a caminhar, e centro de constante envio missionário. Temos, porém, de reconhecer que o apelo à revisão e renovação das paróquias ainda não deu suficientemente fruto, tornando-as ainda mais próximas das pessoas, sendo âmbitos de viva comunhão e participação e orientando-as completamente para a missão”.
  1. A Igreja particularO n. 30 trata da Igreja particular: “Cada Igreja particular, porção da Igreja Católica sob a guia do seu Bispo, está, também ela, chamada à conversão missionária. Ela é o sujeito primário da evangelização,enquanto é a manifestação concreta da única Igreja num lugar da terra e, nela, «está verdadeiramente presente e opera a Igreja de Cristo, una, santa, católica e apostólica». É a Igreja encarnada num espaço concreto, dotada de todos os meios de salvação dados por Cristo, mas com um rosto local. A sua alegria de comunicar Jesus Cristo exprime-se tanto na sua preocupação por anunciá-Lo noutros lugares mais necessitados, como numa constante saída para as periferias do seu território ou para os novos âmbitos socioculturais. Procura estar sempre onde fazem mais falta a luz e a vida do Ressuscitado. Para que este impulso missionário seja cada  vez mais intenso, generoso e fecundo, exorto também cada uma das Igrejas particulares a entrar decididamente num processo de discernimento, purificação e reforma”.

Desejo que a Escuta, meditação e vivência da Palavra de Deus nos conduza rumo a um caminho bonito de discipulado e realize em nós a conversão Missionária, tão urgente e necessária na Igreja. “Todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho”[6].

“Mãe do Evangelho vivente, manancial de alegria para os pequeninos, rogai por nós”.

Desejo que 2017 seja um ano fecundo no nosso caminho de Igreja Diocesana.

Dom Paulo Cezar Costa

Bispo da Diocese de São Carlos

[1] Verbum Domini, 54.

[2] Verbum Domini, 27.

[3] Diretrizes Gerais, 50.

[4] Evangelii Gaudium, 174.

[5] Evangelii Gaudium, 19-20.

[6] Evangelii Gaudium, 20.

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