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Homilia da Quinta-feira Santa

Queridos irmãos, queridas irmãs, nós encerramos a Quaresma, iniciando o Tríduo Pascal. Na Quinta-feira Santa nós deveríamos ter três missas:

Uma, a missa do Santo Crisma, onde o Bispo, reunido com todos os padres da Diocese, que é chamada “Celebração da Unidade”, ele abençoa o óleo dos catecúmenos, que vai ser usado pelos novos batizados ao longo deste ano; ele abençoa o óleo dos enfermos, que vai ser a presença de Deus, da Igreja, a levar o conforto e a cura para os doentes: se a recuperação da saúde, a alegria do retorno à comunidade; se a morte, a cura eterna, com a unção. E, junto com os padres todos, ele faz uma oração, nós estendemos a mão e rezamos junto, consagrando o óleo do crisma, que lembra que no batizado fazemos parte do povo de Deus, na Crisma recebemos o Espírito Santo de Deus, e nos tornamos arautos do Evangelho, testemunhas do Evangelho. Nas ordenações, o óleo do Crisma unge as mãos do novo presbítero, mãos para santificar e perdoar em nome de Deus, em nome da Igreja. E também nas ordenações episcopais, unge-se a cabeça, para mostrar que ele é cabeça daquela comunidade, daquela diocese, ele é o apóstolo de Jesus que tem que levar na cabeça o Evangelho e conduzir o povo para Deus. Com essa cerimônia se inaugura o Tríduo.

Depois foi desdobrada uma segunda cerimônia, a instituição da Eucaristia. “Tomai e comei, tomai e bebei: é Meu Corpo dado, é Meu Sangue derramado. Façam isso em memória de Mim. Eu desejei sentar com vocês e jantar. Porque nesta janta, a minha última refeição, eu ia fazer a minha primeira e única missa.” Então Jesus celebrou uma missa. A única, que foi a última janta. e cada missa que se celebra no mundo inteiro, não é mais uma missa, é a única missa que Jesus presidiu. Tanto que quem preside é Ele; todas, as únicas missas do mundo, até chegarmos ao Céu, e novamente sentarmos à mesa com Ele, em pessoa.

E a terceira celebração seria então a do Lava Pés. “Dei-vos o exemplo para que, como Eu fiz, fazei vós também”.

Para não prolongar: o povo de Deus estava na escravidão do Egito. Quatrocentos anos de servidão. O povo não era escravo no Egito. O povo vivia uma situação de escravidão. Eles foram acolhidos no Egito. Mas com o passar dos tempos, o faraó começou a ter ódio do povo. Podem ler a Bíblia e vocês vão ver estas palavras: o faraó começou a odiar o povo de Deus, porque eles cresceram, eles se tornaram um povo muito numeroso. E este povo tinha um desejo: “Deixe a gente prestar culto ao nosso Deus”. E o faraó foi se irritando. E o povo clamando a Deus: “Esta situação é humilhante!”. Até que Deus disse: “Eu vi, eu ouvi e eu resolvi atender, eu desci para atender o clamor do meu povo”. Daí, o anjo disse: “Já que o faraó endureceu o coração e não atende o pedido de ir embora, eu vou mandar dez pragas. A cada praga, ele vai precisar atender o apelo do povo por liberdade. Só que o faraó se irritava, e endurecia o coração.

A décima praga, qual foi? A primeira leitura da missa de hoje: “vocês vão fazer um rito: vocês vão pegar um carneiro ou um cabrito, vocês vão comer em família”… aquilo que nós ouvimos. “E vocês vão marcar as portas, os umbrais, os batentes das casas de vocês, porque eu vou passar como um anjo exterminador. E aqueles que tiverem os batentes assinalados com o sangue do cordeiro, eu pulo a casa, eu poupo. Aqueles que não tiverem, não fizeram uma aliança comigo, de libertação. Estão desconhecendo a minha proposta, este código, esta aliança que eu estou propondo. Quem desconhece não vai pintar a porta com sangue. Quem está ciente da necessidade de libertação, quem está sedento por libertação, e quem quer se libertar. E comam às pressas, porque vai ser o dia da vitória, vai ser o dia da fuga. E daí o povo fez. O anjo exterminador passou. E não poupou um sequer. Todos comeram às presas e saíram. O faraó viu aquela catástrofe, aquela calamidade: “O quê, agora preciso de mão de obra”. Mandou embora, correu atrás com o exército. O mar se abriu o pessoal de Deus passou, o mar fechou, e nova desgraça.

Estou contando isso pra quê, pra prolongar a nossa cerimônia? Não. Para dizer: Jesus, comemorando esta libertação, diz: “Tomai, eu desejei ardentemente comer com vocês. Agora, quem está desejoso de libertação, quem quer sair da escravidão, quem não quer viver a sujeição à humilhação de viver como escravo, faça um pacto comigo. E o pacto é esse: tomem o pão, este pão que vou dar, e comam. Peguem este cálice de vinho, e bebam. Todas vezes que vocês fizerem memória, eu estarei presente, libertando”. Quem não está conosco, não entende esta graça, não entende esta aliança, não entende este pacto, não entende este convite. O anjo exterminador vai passar, e tristemente eles vão morrer. Mas quem está desejoso da libertação, da vida nova, quem quer viver a liberdade de filhos de Deus. É para a liberdade que Cristo nos libertou. É para ser alegre, é para ser feliz, é para ter vida, é para não ser escravo do demônio, não ser escravo do pecado e de nenhuma situação de pecado.

“Façam isso em memória de Mim”. Fazer memória do Senhor é ter a ousadia de se reunir com as portas abertas e celebrar um rito. Mas não esquecermos que no dia seguinte o Corpo do Senhor foi dado, o Sangue do Senhor foi derramado e quem quiser vai ver o exemplo hoje, no serviço. Ama! Quem ama, serve. Quem quer ser discípulo de Jesus, tem que, mesmo sendo preguiçoso, aprender a lição do serviço. Mesmo o mundo nos convidando a querer tirar vantagem em tudo, tem que aprender a lição do serviço.

E como hoje eu não estou repartindo o lugar com meu bispo – eu não estou do lado do meu bispo, auxiliando, eu estou na presidência – e dia 7 fez 4 anos que estou aqui como pároco, cura, presidindo tantas missas, junto com ele. Eu sei que a cadeira da Diocese é dele, tanto que eu respeito e ela fica lá atrás. Eu sei que ele deveria estar aqui presidindo, e hoje me senti emocionado. E como eu prometi, o meu pensamento lá na Capela do Santíssimo, antes da missa: “Abençoa, Senhor, o meu bispo, lá em Roma, onde ele está aguardando o momento da canonização do nosso amado – dos nossos amados papas, João Paulo II e João XXII”. Pena que Paulo VI ainda não, a quem tive sempre admiração e carinho. Eu pensava: “O que eu vou falar para a comunidade da Igreja-Mãe?”

Me ajudem a servir. Porque vocês já me conhecem: vocês já sabem das minhas fraquezas, já sabem do meu temperamento, já sabem das minhas falhas, e das minhas manias. Mas eu também já sei das de vocês. E é gostoso, isso. Isso nos deve fazer amar e nos deve fazer próximos, irmãos. E a nossa vontade, muitas vezes, é de nos afastarmos daqueles que conhecemos, porque vamos conhecendo as fraquezas. E Jesus sabia muito bem quem o trairia, e o diabo já tinha colocado no coração de Judas a intenção de trair. Mas também no coração de Pedro a traição estava presente, porque nesta noite, acabando a janta, Jesus vai para o Horto das Oliveiras. E durante todo o processo, uma funcionária do Palácio vai dizer: “Você também é um do grupo” e ele vai dizer: “Você está enganada, moça, eu não conheço esse homem, não faço parte dessa turma, não”. Mas ele chorou e Jesus perdoou. Jesus ia passando, e no olhar de Jesus estava “Eu te amo, Pedro”. E Pedro naquela hora chorou amargamente. E naquela hora Jesus deu o perdão pra ele. Então que saibamos ainda nos conhecer, mas que aprendamos de Jesus uma coisa que a gente tem dificuldade: de traduzir o nosso amor em serviço. E não pense você que o meu serviço já está bom. Não está. Tem hora que o cansaço, tem hora que o desânimo toma conta. Eu não faço dez por cento daquilo que Deus me deu, em potencial e capacidade, para fazer, com todo o meu limite. Mas não pense que o teu serviço já está bom, porque você também não faz dez por cento daquilo que você pode e deve fazer, para que a nossa comunidade seja sinal de Jesus no mundo.

“Façam isso em memória de Mim. Celebrem a Eucaristia na Liturgia. E celebrem o Amor-serviço no dia a dia”. E que, acima de tudo, sejamos uma comunidade reconciliada no perdão que o próprio Jesus também instituiu hoje, para que nós possamos caminhar com alegria, testemunhando Jesus. 

Hoje não é dia de tanta alegria – palmas, tantas coisas – na missa. Hoje é dia de solenidade. Diante do mistério, fazer solene e dizer: “Senhor, me ajuda a viver aquilo que estou celebrando”.

(Transcrição da homilia de Pe. José Luiz Beltrame em 17/04/2014)

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