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O Mal do Século

Padre Kécio Henrique Feitosa. Vigário Paroquial da Catedral de São Carlos

Um famoso mito grego, muito antigo, é atualíssimo nos nossos dias, pois retrata uma humanidade cada vez mais perdida e esquizofrênica. Se pudéssemos com sinceridade analisar nossa sociedade, veremos o quando ela é escrava de si, de sua modernidade, de seu progresso, de sua pseudo liberdade, etc. Uma sociedade doente que não consegue ver o caráter comunitário e transcendente da própria existência humanidade. O amor exacerbado de si mesmo, é uma característica da geração autônoma de nossos dias. O culto a própria imagem é sem dúvidas uma patologia que aparece nos intelectuais, artistas, líderes religiosos, até em simples pessoas, que usam das redes sociais para conquistas “fãs”, “seguidores”, “ou amigos”.

O Mito consiste na vida de um belo jovem, Narciso é um personagem da mitologia grega, filho do deus do rio Cefiso e da ninfa Liríope. Segunda a lenda, Narciso, além de ter uma beleza estonteante, a qual despertava a atenção de muitas pessoas (homens e mulheres), Narciso era arrogante e orgulhoso. E, ao invés de se apaixonar por outras pessoas que o admiravam, ele ficou apaixonado por sua própria imagem, ao vê-la refletida num lago. A bela ninfa Eco esteve perdidamente apaixonada por Narciso, no entanto, seu amor nunca foi correspondido, posto que Narciso ficou atraído por sua própria imagem. Com o excessivo amor por si próprio e sobre menosprezar a ninfa Eco, ela lançou um feitiço sobre Narciso, que ficou definhando até morrer no leito do rio.Com sua morte, o belo jovem foi transformado em flor.

Resumidamente o mito é esse, “Narciso é vítima do reflexo da beleza; ele morre por um reflexo, e quando percebe que essa imagem não é senão a imagem dele mesmo, sua ilusão é acrescida de um sentimento de infelicidade invencível; ele não está desiludido; ao contrário, está encerrado na sua auto ilusão”[1]. Agora cabe a mim e a você leitor, questionar, o que eu e você temos de Narciso? Será que somos dependentes de nossa própria imagem? Cultuamos a imagem dos outros e no fim queremos também receber o que acabamos tributando aos nossos “ídolos”? Somos escravos dessa cultura que prega que precisamos de seguidores e fãs? Temos consciência do Mal da nossa geração, ou já estamos mergulhados nela?

“Pois trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura antes que ao Criador”, (Rm 1, 25)

A questão gira em torno da consciência ou da falta dela, Narciso é um protótipo de humanidade que perdeu a consciência de si, e consequentemente entrou numa esquizofrenia coletiva. Não se sabe mais quem sou eu? O que estou fazendo aqui? O que é a sociedade? Valores? Cultura? Fé? Deus? Ética? Enfim. Não se tem consciência de nada, a não ser: meus direitos, as vantagens que terei, se estou bem, se me amam, se tenho muitos amigos, seguidores, fãs, etc. Vivemos numa sociedade doente, que adoece à todos. Mas, existe meios de não adoecer, é esse remédio precisa ser tomado, desejado sempre. O lugar de aplicar esse é remédio é na Alma, e o remédio é a santidade.

O grande filosofo francês Louis Lavelli, nos aponta que:

A consciência é primeiramente um Eu que ela com emoção, mas é também uma alma, uma essência espiritual, uma pura personalidade livre, que corresponde à vocação assumida. A alma não é um sujeito religiosos; ela está inteiramente nesse ultrapassar de si por si que nos faz atingir a grandeza e a santidade. A alma é parte superior do nosso eu, a única capaz de entrar em contato com Deus.[2]

Precisamos voltar-nos para dentro de nós, para nossa consciência, para nossa alma e perceber se ela foi infectada com o mal de nosso século. Narciso permaneceu escravo da consciência que tinha de si mesmo; o caminho verdadeiro é ultrapassar essa consciência de si encontrando a liberdade da alma.[3] Somente uma alma livre é capaz se perceber o sentido da existência, somente uma alma livre é capaz de libertar os outros. Por isso, é missão de cada um de nós, sobretudo da família, educadores, líderes religiosos, intelectuais, de todos, de formar as consciências da nova geração, de cada irmão nosso. Ter indivíduos com consciências bem formadas é sinal de esperança de uma sociedade diferente.

É preciso renunciar a esse olhar de si mesmo que se auto enaltece, que não percebe o que está em volta, que me fecha cada dia mais, e me torna uma alma escura em processo de definhamento. O erro de Narciso está aí; ele se separou do mundo, de si mesmo e dos outros.[4] E quantos de nós estão nesse mesmo erro?

“Amarás o SENHOR, teu Deus, com todo o coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças”, (Dt 6,5).

Amar, é o precisamos, em primeiro lugar amar a Deus, senhor da vida, da história, de tudo, e consequentemente aos nossos irmãos, nosso próximo. Santo Agostinho, foi o primeiro a mostrar que o amor de Deus se opunha ao amor de si. Dois amores construíram duas cidades: o amor de si, levado até o desprezo de Deus, a cidade terrena; o amor a Deus, levado até o desprezo de si, a cidade celeste.[5] Portanto, nos coloquemos inteiramente nas mãos de Deus, para que ele nos liberte da escravidão de nós mesmos. Para que sejamos uma sociedade nova, onde a vontade seja regida por uma consciência livre. O amor é a verdade da vontade, ou seja, a vontade nada é sem o amor.[6]

[1] LAVELLE, Louis. O erro de Narciso. É realizações, São Paulo: 2012.

[2] Idem.

[3] Ibidem.

[4] Ibidem.

[5] Santo Agostinho, Cidade de Deus.

[6] LAVELLE, Louis. O erro de Narciso. É realizações, São Paulo: 2012.

 

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